Mudança de hábito

 

Os nossos hábitos moldam nossa sociedade. Não é de se surpreender que uma nova consciência ambiental surgida há pouco tempo esteja caminhando a passos lentos no Brasil. Estudos mostraram que em 2015 teve um aumento de geração de resíduos sólidos em relação ao ano anterior, o que equivale a 79,9 milhões de toneladas no total. E cerca de 80 mil toneladas são descartadas inadequadamente todos os dias, isto é, 40% do lixo coletado. A conclusão: nosso país é o quarto maior gerador de resíduos sólidos do mundo.

Desde 2010 a legislação deu um salto no que tange a destinação desses resíduos, com a Política Nacional dos Resíduos Sólidos, e os esforços causaram uma melhora quanto aos locais adequados para receber o lixo, como os aterros sanitários. Mas a grande maioria dos municípios não estavam e ainda não estão preparados para um avanço significativo no gerenciamento dos resíduos sólidos e 60% deles ainda destinam seu lixo a locais inapropriados.

As cidades brasileiras não estavam preparadas estruturalmente e culturalmente para mudanças rápidas. A maior causa do aumento dos resíduos está na nossa cultura do consumo exacerbado, onde comprar virou sinônimo de status e estilo de vida invejado. A publicidade e a propaganda têm um papel maior na vida das crianças que a educação ambiental e por isso estas são educadas nos ideais da cultura do consumo.

O mercado, então, dita o ritmo acelerado do descarte de produtos, feitos para terem uma vida útil limitada e lançados com novos detalhes mais modernos que os modelos anteriores. Estamos condicionados a querer mais, e muitas vezes, não buscamos reparo a um produto estragado, transformando-o facilmente em descartável. Somos incentivados a querer mais e melhor, mas não somo levados a pensar na destinação final de tantos produtos.

A situação tende a chegar num ponto insustentável, mas a questão é pouco discutida. A falta de diálogo e informação dificulta a mudança de hábito da sociedade e pouco se atribui a responsabilidade do equilíbrio ambiental às pessoas e sua cultura. Muito se fala em reciclagem, mas poucas pessoas a praticam ou conseguem enxergar o benefício dessa prática. A falta de estrutura de um município muitas vezes dificulta a ocorrência de ações sustentáveis, fazendo com que o indivíduo culpe autoridades e se exima completamente da culpa.

Reciclar é uma solução adequada, mas antes dela devemos pensar uma forma de prevenir o problema e não o remediar. Temos que ter cautela ao atribuir à reciclagem a única forma de lidar com o excesso do lixo e esquecer de assumir uma atitude de redução do consumo dos bens materiais.

O lixo gera empregos e até mesmo lucros para empresas, mas em primeiro lugar o lixo deve ser visto não como uma mercadoria, e sim como um problema que todos nós devemos resolver e que é uma questão de saúde pública. A reciclagem deve sim ser valorizada, mas ela deve ser limitada ao necessário, depois de ter sido reduzida a geração de lixo.

A verdade é que o Brasil ainda trabalha com as consequências do lixo e não suas causas. A principal arma para tratar as causas é alimentando a consciência ambiental. O mal funcionamento do serviço público certamente é um fator que desestimula a população a fazer sua parte, mas o problema do lixo só deve melhorar se cada pessoa se envolver no processo.

As atitudes da população interferem enormemente na quantidade de lixo e sua possibilidade de ser tratado. Mas não existe solução pronta independente do lugar; cada área tem sua solução mais adequada. Ao analisar um bairro e perceber, por exemplo, que ele é grande gerador de resíduos de plástico, é preciso ter uma maior concentração de catadores deste material, evitando que ele vá para o aterro.

Existem outros métodos de tratamento, como a compostagem ou coleta seletiva, mas é preciso ter conhecimento do local para usar um método conforme sua necessidade, reduzindo custos e facilitando o processo. Qualquer mudança proposta para uma localidade, deve ter apoio de todos os atores da sociedade, mas a população deve ser a primeira a realizar mudanças.

Hiram Sartori

Hiram Sartori é Doutor em Engenharia Civil, área de Hidráulica e Saneamento, e ênfase em Resíduos Sólidos, pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP(1998), Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995), Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG (1984). Tem experiência em Engenharia Civil, atuando com ênfase em Saneamento e Meio Ambiente, principalmente nas áreas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, capacitação e treinamento em gerenciamento de resíduos sólidos, administração universitária.

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