Lixo ou matéria-prima?

 

Nos centros urbanos enfrentamos um problema ambiental com o excesso de lixo e a falta de capacidade do meio ambiente de absorve-los, além de um mau gerenciamento das administrações municipais. Em Belo Horizonte não poderia ser diferente. Em janeiro participei de uma reportagem altamente informativa, no programa BH do Bem, na TV Câmara, sobre a situação do lixo na capital mineira e pude expor problemas, além de apontar soluções.

Informações sobre o excesso de resíduos sólidos e como lidar com ele é de extrema importância para que os cidadãos se posicionem e conscientizem sobre medidas que vão ajudar a solucionar o problema. Catadores de materiais recicláveis sabem disso melhor do que ninguém. Na reportagem podemos ver um trabalhador do ramo fazendo críticas ao comportamento das pessoas diante do que consideram “lixo”, materiais sem utilidade, enquanto a classe via o material como matéria prima, que pode ser reciclada e vendida, gerando trabalho e renda.

De fato, o reaproveitamento e reutilização, dos resíduos tem um extremo calor econômico, ambiental e social. Para começar, os impactos à saúde e meio ambiente são reduzidos, assim como o uso de energia, além de gerar trabalho e renda. E mais, se todos resíduos recicláveis fossem devidamente reciclados, haveria geração de renda estimada em 8 bilhões de reais por ano na economia do país.

Com o aumento da conscientização ambiental na última década, a atividade de catador de material reciclável aumentou consideravelmente. Como citado na reportagem, a Associação dos Catadores de Papel, Papelão e Material Reaproveitável, a ASMARE, foi criada em 1990, como uma mobilização dos catadores, apoiados pela Pastoral de Rua da Arquidiocese de BH, e por outras lideranças, o que garantiu o reconhecimento da importância de seu trabalho pela prefeitura e pela sociedade.

Mais recentemente, a prefeitura buscou o envolvimento social através de educação ambiental e mobilização social, colocando o cidadão como agente ativo da coleta. Todos devem separar seu lixo seco e molhado, separar materiais reaproveitáveis quando for o caso, e levar aos pontos de entrega voluntária mais próximo. Se o bairro do morador não tiver um ponto de coleta, “adote um catador”, como sugere o trabalhador da reportagem. Ele explica que os catadores passam por todos os bairros catando material, e é possível entregar sua coleta a ele, ou até mesmo levar diretamente ao galpão de triagem.

O aumento da população e do consumo trouxe maior preocupação com a questão do lixo no mundo. Com as ASMARE, os catadores começaram a receber o reconhecimento e capacidade técnica. Ela também teve papel importante no surgimento de uma nova abordagem do ciclo do lixo pela administração municipal. A profissão foi regulamentada apenas em 2002, com registro na Classificação Brasileira de Ocupações e o salário mensal de um catador gira em torno de um salário mínimo.

Os catadores, porém, ainda são bastante desvalorizados. Percorremos um longo caminho na última década, com grandes avanços para o gerenciamento dos resíduos sólidos, mais notoriamente com a criação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, mostrando um engajamento maior das autoridades com a questão ambiental. Precisamos celebrar e continuar exigindo novos avanços, tanto para a questão do lixo quanto para os catadores. Eles são responsáveis por uma enorme economia pública e prevenção de impactos negativos no meio ambiente e na saúde pública, causada pelo mau gerenciamento de resíduos. É preciso valorizar ainda mais essa profissão, pois ela é peça importante para um planeta mais saudável.

Hiram Sartori

Hiram Sartori é Doutor em Engenharia Civil, área de Hidráulica e Saneamento, e ênfase em Resíduos Sólidos, pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP(1998), Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995), Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG (1984). Tem experiência em Engenharia Civil, atuando com ênfase em Saneamento e Meio Ambiente, principalmente nas áreas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, capacitação e treinamento em gerenciamento de resíduos sólidos, administração universitária.

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