O que fazer com o lodo gerado em estações de tratamento de água e esgoto sanitário?

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As estações de tratamento de água e esgoto geram como produto um resíduo sólido, genericamente chamado de lodo de esgoto. Por que é importante a preocupação com o destino final do lodo gerado pelas estações de tratamento de água e de esgoto? Como eu, Hiram Sartori, já pesquisei e publiquei como tema de doutorado, a caracterização geotécnica desses lodos é altamente importante para a criação de novas soluções para o problema. Mas como o lodo pode causar impactos negativos no meio ambiente e o que pode ser feito para impedir?

Pensando nisso, a PROSAB, programa de pesquisas em saneamento básico, realizou um trabalho com a participações das instituições SANEPAR, UEL, UFRGS, UFPb, UNISINOS, UFSCar e UFES e coordenação de Cleverson Andreoli, com a intenção de estimular a adoção de alternativas de disposição final dos biossólidos e do lodo de ETA, por intermédio da apresentação de tecnologias adaptadas às condições brasileiras. Porém, o mais relevante papel do desenvolvimento da ciência e tecnologia é quando os avanços das pesquisas passam para a prática.

O grande problema relacionado ao lodo gerado em ETA é que um grande número de estações de tratamento de água ainda lança esse resíduo diretamente nos cursos d’água, principalmente em países em desenvolvimento, como o Brasil. Isso gera impactos ambientais que tem despertado uma preocupação dos órgãos ambientais. A gestão desses resíduos é complexa e bastante cara, podendo custar até 60% dos custos operacionais de uma estação de tratamento. E o pior é que o planejamento e a execução do destino final têm sido frequentemente negligenciados nos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil. O que acontece muitas vezes é que os projetos de estações de tratamento simplesmente ignoram a forma de destino desse material. Sem um planejamento, a destinação acaba sendo feita de emergência, o que acarreta altos custos financeiros e ambientais, comprometendo, em alguns casos, os benefícios de todo o sistema de coleta e tratamento de esgotos. Um dos grandes avanços na área é que alguns órgãos ambientais já estão exigindo no processo de licenciamento das ETEs, o detalhamento da alternativa de disposição final do lodo.

A legislação brasileira, e de diversos outros países, aponta que a responsabilidade pelos problemas causados pelo destino inadequado é sempre dos produtores do resíduo, que podem ser enquadrados na própria lei de crimes ambientais. Os países desenvolvidos recorrem a alternativas eficazes, como a disposição em aterros sanitários, a aplicação controlada no solo e a reciclagem, onde os resíduos são reutilizados para gerar algum bem ou benefício à população.

A reciclagem agrícola tem maior perspectiva de crescimento em todo o planeta, já que há necessidade de produção de alimentos em quantidades cada vez maiores. Esta alternativa implica a garantia de fornecimento de insumo de boa qualidade à agricultura, com seleção criteriosa, escolhendo áreas e culturas aptas com a orientação técnica adequada ao produtor rural e realizando o monitoramento ambiental. O uso da alternativa de usar aterros sanitários deve reduzir devido às exigências ambientais crescentes.

Em 2001, ano desta pesquisa, o Brasil produzia entre 150 mil a 220 mil toneladas de lodo por ano. E esse número só deve crescer, já que ele é produto de baixos índices de coleta e tratamento de esgoto ainda existentes no país. Dos 116 milhões de habitantes no país, apenas 32 milhões têm seu esgoto coletado, o qual, se fosse integralmente tratado, acarretaria uma produção de 325 mil a 473 mil toneladas por ano de lodo. A tendência é que aumente a pressão da sociedade por melhores condições ambientais.

O trabalho produzido pela PROSAB contribui com o aprofundamento desta importante discussão, apresentando resultados de pesquisas e trazendo novos dados e conceitos para o surgimento de novas soluções para o lodo gerado nas estações de tratamento.

Hiram Sartori

Hiram Sartori é Doutor em Engenharia Civil, área de Hidráulica e Saneamento, e ênfase em Resíduos Sólidos, pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP(1998), Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995), Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG (1984). Tem experiência em Engenharia Civil, atuando com ênfase em Saneamento e Meio Ambiente, principalmente nas áreas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, capacitação e treinamento em gerenciamento de resíduos sólidos, administração universitária.

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