A Articulação entre Cidadania e Educação Ambiental: O Projeto Do Nicho ao Lixo

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O capitalismo contribuiu muito para a degradação ambiental, que aumentou gradativamente ao longo do século XX. A consciência ambiental se tornou algo cada vez mais urgente, e despertou ações de autoridades, que passaram a fazer encontros, leis, campanhas que levassem a informação sobre o meio ambiente para a população em geral. Hoje o ato de educar o ser humano para uma nova realidade em que se considere a Terra e os recursos naturais como bens essenciais à manutenção de vida é uma necessidade. E a escola, com suas atribuições sociopolíticas, passou a dar espaço à cidadania no meio educacional.

Para tratar do assunto, a mestranda Tereza Cristina Rodrigues fez uma análise do Projeto “Do Nicho ao Lixo”, um trabalho de educação ambiental desenvolvido no CETAP, Centro Educacional Técnico e de Artes Profissionais, situado no bairro Angola, em Betim, Minas Gerais. O estudo virou sua dissertação de mestrado, que foi apresentada na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, onde conseguiu seu título de Mestre em Educação. Tive a honra de contribuir para este trabalho concedendo uma entrevista à autora, onde pude esclarecer sobre o tema resíduos sólidos.

O principal objetivo do trabalho foi verificar se o projeto “Do Nicho ao Lixo” trabalhou a Educação Ambiental na perspectiva da Cidadania. A articulação entre essas duas áreas foi um importante critério ao longo da pesquisa e acompanhou o processo do início ao fim. Tereza analisou os conceitos que os atores da pesquisa possuem, observou práticas educativas desenvolvidas no trabalho de educação ambiental, usou questionários e análise documental para entender melhor a articulação entre Cidadania e Educação Ambiental. Além disso ela investigou o tipo de formação que os professores tiveram para trabalhar nessa perspectiva e detectou as dificuldades e facilidade em se trabalhar a articulação desses saberes.

A pesquisa concluiu que o projeto está voltado exclusivamente para a questão do lixo urbano, não promovendo uma discussão ampla das questões ambientais. Esse tipo de educação ambiental se enquadra na vertente do conservadorismo dinâmico, já que as ações parecem reformistas, visam à mobilização, à transformação das ações da comunidade escolar, mas não sensibilizou, não mudou a percepção e não promoveu um estudo radical que se aprofundasse nas causas da degradação ambiental. O projeto não deixou claro que o lixo urbano é apenas a ponta de um enorme iceberg de problemas ambientais.

Existem pontos que deveriam ter sido abordados dentro do projeto que foi ignorado por completo. Não se discutiu a degradação da qualidade de vida e a sobrevivência marginal de mais da metade da população do planeta. Não houve também uma perspectiva politizada de educação ambiental. Dessa forma, não ficou claro para os educandos que os agentes socioeconômicos são também responsáveis pela degradação ambiental.  Não houve conscientização da relação entre a organização da sociedade aos problemas ambientais atuais.

A cidadania que foi abordada pelo projeto pode ser considerada de mercado, isto é, despolitizada e voltada para a ótica capitalista do lucro. O objetivo da coleta e separação do lixo é sua venda, e o aumento de vida útil do aterro sanitário da cidade. Esse cidadão vê na função de catador de lixo apenas uma profissão. Isto é, ele discute apenas as causas financeiras, e nunca as causas dos problemas ambientais. Os atores do projeto não enxergam que o lixo urbano é apenas um dos inúmeros problemas ambientais, e que estamos diante de uma crise definidora dos nossos destinos. Mas a dissertação destaca, também o lado positivo do projeto. Mesmo não adotando estratégias específicas para a formação cidadã, o Projeto Do Nicho ao Lixo conseguiu imprimir a postura participativa nos educandos.

Hiram Sartori

Hiram Sartori é Doutor em Engenharia Civil, área de Hidráulica e Saneamento, e ênfase em Resíduos Sólidos, pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP(1998), Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995), Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG (1984). Tem experiência em Engenharia Civil, atuando com ênfase em Saneamento e Meio Ambiente, principalmente nas áreas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, capacitação e treinamento em gerenciamento de resíduos sólidos, administração universitária.

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