Problemas operacionais na indústria da água: o caso de Recife

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Em 2003, a mestranda Rosângela Gomes Tavares apresentou sua dissertação ao Curso de Pós-Graduação do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal de Pernambuco, que tratava sobre o consumo excessivo de cloro na linha tronco de distribuição do sistema gurjaú e lodos gerados pelas 6 maiores estações de tratamento de água da região metropolitana do Recife. Meus próprios estudos com a caracterização geotécnica de lodos provenientes de estações de tratamento de água e de esgotos sanitários serviu de referência nesse trabalho de extrema importância para a saúde pública.

A indústria de tratamento de água utiliza a água bruta proveniente de mananciais superficiais transformando-a em água tratada. É importante que o produto gerado seja monitorado, assim como o controle do processo de tratamento e a disposição dos resíduos produzidos. Rosângela, então, decidiu focar seu trabalho em tentar solucionar dois problemas que ocorrem nos sistemas de água da Região Metropolitana do Recife (RMR): o consumo excessivo de cloro na linha tronco de distribuição de água do sistema Gurjaú, observado ao longo de 23 km de tubulação, e o estudo de quantificação e caracterização dos resíduos gerados nas etapas de decantação e filtração no processo de tratamento de água das 6 maiores ETAs da RMR.

Essa pesquisa envolve um dos maiores bens da humanidade, a água. Para ter noção da importância do tratamento da água o trabalho lembra que o planeta sofre com um problema ambiental grave: a falta de água potável no planeta. Apesar de ser uma substancia vital ao homem, – seja no aspecto da saúde, como no desenvolvimento socioeconômico – apenas 1% da água no mundo é doce e disponível para o uso. Do restante, 97% é água salgada e 2% formam as geleiras inacessíveis. Parece impossível, mas grande parte da população do planeta não tem acesso à agua potável e além disso, sofre com problemas sanitários. Soma-se a isso o desperdício, a poluição e a violação das áreas de preservação dos cursos d’água que fazem com que os recursos hídricos se tornem ainda mais escassos.

A COMPESA, Companhia Pernambucana de Saneamento, criada em 1971, é executora da política de saneamento e concessionária dos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário, atuando principalmente em Recife. A companhia tem o objetivo de fornecer água à população em quantidade e qualidade satisfatória, além de coletar, transportar e dispor de formar adequada os esgotos sanitários e industriais, segundo os padrões estabelecidos por norma. A ETA é a unidade inserida num sistema de abastecimento que abrange desde a captação de água bruta até a distribuição da água tratada. Esta unidade deve garantir a qualidade da água produzida, a fim de evitar qualquer malefício à saúde humana. É importante que as suas características físicas, químicas e organolépticas não sofram alterações, desde a ETA até a rede.

Para destruir as bactérias que eventualmente tenham acesso ao sistema distribuidor é feito a desinfecção com o uso do cloro, que um dos métodos mais usados para garantir a boa qualidade bacteriológica da água. No entanto, este é um processo que apresenta inconveniências, devido ao alto poder oxidativo do cloro que, reagindo com substâncias presentes na água, pode gerar produtos indesejáveis, gerando um consumo do cloro residual livre.

Em paralelo à produção de água potável, as ETAs geram resíduos que são comumente chamados de lodos, cuja composição depende das características da água bruta e da tecnologia de tratamento empregada. Os despejos desses lodos têm sido efetuados em cursos d’água próximos às ETAs ou em galerias de águas pluviais. Segundo a dissertação, os efluentes das redes de esgotos, os resíduos líquidos e sólidos domésticos ou industriais somente poderão ser lançados nas águas situadas no território do estado, interiores ou costeiras, superficiais ou subterrâneas, desde que não sejam consideradas poluentes na forma estabelecida em decreto-lei.

Mas a pesquisa de Rosângela constatou que os despejos das ETAs apresentam altas concentrações de sólidos totais, portanto, devem ser devidamente tratados e dispostos sem que provoquem danos ao meio ambiente. Assim, o lançamento desses resíduos em corpos d’água está, quase sempre, em desacordo com a legislação vigente, que considera o ato como ilegal desde 1976, tornando-o em crime ambiental.

Hiram Sartori

Hiram Sartori é Doutor em Engenharia Civil, área de Hidráulica e Saneamento, e ênfase em Resíduos Sólidos, pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP(1998), Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995), Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG (1984). Tem experiência em Engenharia Civil, atuando com ênfase em Saneamento e Meio Ambiente, principalmente nas áreas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, capacitação e treinamento em gerenciamento de resíduos sólidos, administração universitária.

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