Mobilização Social para a coleta seletiva de resíduos urbanos: o caso do município de Coronel Xavier Chaves

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A mobilização social é essencial para uma coleta seletiva de resíduos sólidos urbanos eficaz. É esse tema que a então mestranda Fabiana Costa Santos desenvolve ao longo de sua dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Escola de Engenharia da Universidade Federal de Minas Gerais, em 2004. Minhas pesquisas acadêmicas serviram de apoio para este trabalho, principalmente no que diz respeito a caracterização física dos resíduos sólidos domiciliares, tema de minha especialidade.

A dissertação estudou o caso do município de Coronel Xavier Chaves, em Minas Gerais, que inaugurou em 2001 a Usina de Triagem e Compostagem de Lixo (UTC), dando início, logo em seguida, a campanhas para separação do lixo seco e úmido, tendo uma resposta bastante colaborativa da população. Mas com o passar do tempo, o lixo começou a chegar à usina bastante misturado, mostrando que houve queda na participação da população na coleta seletiva.  Segundo a Prefeitura do município, essa queda na colaboração é cíclica, e demonstra que é necessária uma nova mobilização social de tempos em tempos para atingir os objetivos de cooperação para a coleta seletiva na fonte.

No entanto, a autora notou que a cada nova campanha de mobilização, fica mais difícil sensibilizar a população para o tema. Como parte da campanha de Coronel Xavier Chaves, a prefeitura realizou ações educativas com crianças, principalmente, em que foram feitas visitas à usina de triagem e compostagem de lixo, e também visitas orientadas ao Grupo da Terceira Idade. Além disso, foram mescladas a utilização de várias alternativas, como as oficinas em dinâmica de grupos como um método de transformação psicossocial. O objetivo das ações é minimizar a produção de lixo e maximizar a reciclagem de seus componentes, atos que dependem da cooperação da população beneficiária dos serviços de limpeza pública.

Para fazer a pesquisa, Fabiana escolheu como grupo-alvo as “donas-de-casa”, já que são consideradas operadoras e gerentes da grande maioria das atividades geradoras dos resíduos sólidos urbanos de cada domicílio, como a preparação de alimentos, a faxina, e outros. Elas também, mudando de comportamento, tem o poder de influenciar os demais moradores das casas, agindo como multiplicadora das práticas que conhece e defende dentro de sua própria residência. Segundo a autora, se esse comportamento fosse modificado, ele poderia extrapolar os limites do domicílio, já que influenciaria definitivamente a alteração dos padrões de consumo, contribuindo para transformar os padrões de produção.

A mestranda começou seu trabalho com um diagnóstico da situação da usina, onde ela observou as condições de trabalho na esteira de triagem de materiais, e uma avaliação dos parâmetros de composição gravimétrica e produção per capita, por meio da caracterização dos resíduos processados. Numa fase inicial, foram aplicados questionários para conhecimento do público selecionado. Já a segunda fase foi feita uma mobilização através de oficinas em dinâmicas de grupo como meio de intervenção psicossocial, visitas à usina e palestras, para assim conscientizar e sensibilizar o público.

Na dissertação, Fabiana chegou à conclusão de que a mobilização para segregação do lixo na fonte acontece somente se tiver conscientização e a sensibilização para o problema. E porque não há tanto mobilização por parte da população? Durante as entrevistas, foram revelados vários fatores como falta de sacolinhas plásticas, logística inadequada na coleta e no transporte de lixo, e até a causa considerada mais grave: o desconhecimento parcial ou total sobre o local e o método de destinação final do lixo produzido na cidade. Outras respostas do questionário aplicado revela uma atitude das donas-de-casa em relação à separação que teve conotação de perda de tempo e de inutilidade, como a dona-de-casa que respondeu: “…meus vizinhos não separavam, então eu parei de separar. Me sentia fazendo papel de boba”. Essas e outras respostas ajudaram a moldar os trabalhos de mobilização, como foi o caso das entrevistadas que sentiam a necessidade de afastar o lixo o mais rápido possível de suas vistas. Com essas informações foi visto a necessidade de que as campanhas de mobilização devem permitir desfazer essa imagem de que o lixo é algo ruim ou repugnante.

A falta de motivação para separar o lixo na fonte é também provocada pelas condições inadequadas de coleta ou transporte oferecidos pela Prefeitura. Como sugeriu esta dona-de-casa: “Eu separava o lixo, mas reparava que o coletor jogava os sacos de qualquer jeito na carroceria do caminhão, misturando tudo. Então eu pensei: “Para que vou continuar separando? Perda de tempo!”. Da mesma forma, para que se sinta respeitada, a população precisa ser informada sobre as alterações realizadas nos serviços oferecidos.

De uma forma geral, a principal conclusão da dissertação é que os esforços para a coleta seletiva eficaz devem ser conjuntos. Tanto a prefeitura deve dar importância a logística de coleta e transporte de resíduos, como também é preciso que a população veja o problema gerencial do lixo como peça fundamental na difusão das atitudes mais adequadas, entendendo o valor do seu papel no processo. Finalmente, é necessário que o estudo, o planejamento e a execução das ações em educação ambiental seja efetivada através da junção dos vários olhares de muitas disciplinas, tendo em vista que apenas profissionais com diferentes perspectivas sobre o tema poderão unir, o mais harmonicamente possível, a visão de cada um dos envolvidos.

 

Hiram Sartori

Hiram Sartori é Doutor em Engenharia Civil, área de Hidráulica e Saneamento, e ênfase em Resíduos Sólidos, pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP(1998), Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995), Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG (1984). Tem experiência em Engenharia Civil, atuando com ênfase em Saneamento e Meio Ambiente, principalmente nas áreas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, capacitação e treinamento em gerenciamento de resíduos sólidos, administração universitária.

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