Lições sobre a coleta seletiva no bairro de São Francisco, Niterói

reciclar-sartori

 

As estratégias de gestão dos resíduos sólidos urbanos estão ligadas não só à disposição adequada dos resíduos, mas também em questões do meio ambiente, econômicas e de saúde. A reciclagem é uma etapa importante da gestão de resíduos, e as atividades que a compõem, em particular a forma de captação dos materiais e seus impactos, merecem ser melhor estudadas.

A reciclagem é definida como o recolhimento diferenciado de matérias separados já nas fontes geradoras, visando facilitar o seu reaproveitamento bem como assegurar a qualidade deles. As primeiras experiências com reciclagem se deram nos Estados Unidos e Europa no início do século XX.  A atividade de catação de materiais teve bases fundamentalmente econômicas, e só nos anos 1970 ela passou a ater valor ambiental, como atividade de preservação do meio ambiente. Porém, foi com a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, ocorrida em 1992, que houve um avanço na discussão de forma definitiva e a reciclagem passou a integrar a agenda do gerenciamento dos resíduos sólidos urbanos como o terceiro dos “3 R’s”.

No Brasil, a primeira experiência sistemática e documentada de coleta seletiva foi em 1985, no bairro de São Francisco em Niterói, no Rio de Janeiro, no qual se mantem até os dias de hoje. Para estudar essa experiência, que teve papel relevante para disseminar e discutir essa prática no Brasil, Emílio Eigenheer, professor na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e João Ferreira, pesquisador visitante da UERJ, desenvolveram um estudo sobre a coleta seletiva em São Francisco, Niterói e publicaram as lições e perspectivas que pudessem servir de base para novas experiências no Brasil.

A coleta seletiva em Niterói surgiu dos esforços da Universidade Federal Fluminense e do Centro Comunitário de São Francisco, a associação de moradores do bairro.  Não foi desenvolvida de forma integrada à gestão de resíduos sólidos do município, mas incentivou a implantação de outras experiências descentralizadas em favelas, condomínios, unidades militares, escolas e mesmo em um presídio.

O bairro de São Francisco tem a população de 10 mil habitantes e no início a coleta seletiva alcançava 100 casas, chegando a atingir, paulatinamente, 1.200 residências. Na fase inicial, os alunos da UFF visitaram e revisitaram as residências escolhidas para explicar a importância da coleta seletiva e da participação dos moradores na segregação dos materiais. As dúvidas dos moradores, na época, eram sobre o tempo gasto para segregação dos materiais, o espaço necessário para sua acumulação e receio de odores e de atração de vetores.

O que os autores do artigo descobriram na sua pesquisa, foi que o trabalho realizado em São Francisco não é fácil de ser reproduzido com facilidade.  Ela foi possível devido ao envolvimento direto da comunidade, com o apoio técnico de uma universidade e apoio financeiro externo. Eles ponderaram que o modelo não é necessariamente viável para gestões municipais, principalmente as de grande porte. Devido as questões financeiras os autores sugerem que os principais responsáveis por termos ainda resultados pífios com reciclagem no país, se deve aos entraves do mercado comprador de recicláveis, além dos altos custos de se manter um trabalho como este. Ao que tudo indica, cabe ainda ao catador informal, não cooperativado, um importante papel no suporte às indústrias de reciclagem no país.

O bairro de São Francisco é uma referência e serve como indicador da possibilidade de a coleta seletiva ser implementada nas áreas urbanas de forma permanente. Os autores destacam como essenciais para a participação da população a educação ambiental consistente, o serviço de boa qualidade, informações adequadas sobre os custos, o papel e os resultados de sua participação no âmbito de resíduos sólidos.

 

Hiram Sartori

Hiram Sartori é Doutor em Engenharia Civil, área de Hidráulica e Saneamento, e ênfase em Resíduos Sólidos, pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP(1998), Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995), Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG (1984). Tem experiência em Engenharia Civil, atuando com ênfase em Saneamento e Meio Ambiente, principalmente nas áreas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, capacitação e treinamento em gerenciamento de resíduos sólidos, administração universitária.

Você pode gostar...

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: