A Zona Vermelha: local de batalhas nas duas guerras mundiais ainda apresenta restos de bombas e contaminação da água e do solo

As duas Grandes Guerras Mundiais deixaram um rastro de destruição pela Europa, e ainda hoje pode-se encontrar restos de munição e explosivos nos antigos campos de batalhas que hoje servem como vilas ou lugar para agricultura. Na França, palco de batalhas brutais do século XX, existe um local hoje proibido de acesso a qualquer pessoa, que tem cerca de 100Km², quase o mesmo tamanho que Paris, chamado Zona Vermelha. Desde o final da Primeira Guerra Mundial, o governo francês decidiu relocação dos residentes da área, já que a missão de remover incontáveis armas não-detonadas era praticamente impossível. Vilas inteiras foram desfeitas, devido aos riscos deixados pela Guerra.

Battelfield_Verdun

A área proibida francesa, porém, ainda era usada por caçadores e guardas florestais até 2004, quando pesquisadores alemães descobriram níveis extremamente perigosos de até 17% de arsênico no solo, dezenas de milhares de vezes maior que o nível normalmente encontrado nas áreas vermelhas.  Na água o nível de arsênico foi de 300 vezes maior que a quantidade tolerada. E até alguns animais foram contaminados, com altos níveis de chumbo encontrados principalmente no fígado de javalis que eram caçados na área. Ainda não foi feito nenhum estudo sobre a contaminação em seres humanos, mas as autoridades proibiram de vez o acesso ao local em 2012.

Desde o final da Guerra o governo francês se dedica a limpeza de munições, formando uma agencia especial com este único propósito, chamado Department du Deminage. Com isso o tamanho da zona vermelha foi bastante reduzida, e em algumas áreas do acesso foi liberado para a população e para agricultura, embora em vários casos, ainda houve acidentes com granadas. Além disso, até os anos 1970, a limpeza era feita apenas superficialmente, focando na destruição de centenas de milhares de bombas químicas inexploradas usadas na Primeira Guerra, sem levar em consideração o vazamento e contaminação do solo e da água. Infelizmente grandes quantidades de chumbo não-biodegradável contaminou o solo, além de mercúrio e zinco que provavelmente não vão desaparecer por pelo menos 10 mil anos.

Um fato interessante sobre essa época, é o surgimento da palavra “Verdunização”, que vem da palavra francesa “Verdunisation”, que surgiu devido ao nome do local da zona vermelha: Verdun. A palavra se refere ao tratamento de água para ser bebida, usando cloração que surgiu em Paris em 1911, quando milhares de corpos humanos e animais contaminaram rios durante o período da Guerra.

Hoje, as áreas menos perigosas da zona vermelha, que foram liberadas para uso, ainda apresentam riscos. Agricultores ainda atingem granadas todo ano, explodindo seus tratores e correndo o risco de morrer devido aos resquícios de uma guerra centenária. Existe até mesmo sinais na estrada que indicam lixeiras para ser deixadas as granadas encontradas em suas terras, para que as autoridades a coletem. A chamada “colheita de ferro” chega a juntar cerca de 900 toneladas de munições não-detonadas descobertas todo ano que os agricultores encontram depois de arar sua terra.

A zona vermelha ainda continua isolada e 544 municípios foram proibidos de consumir a água da região, devido aos níveis excessivos de perclorato, usados na construção de foguetes e munições. A colheita de alimentos nessas áreas também deve ser monitorada rigorosamente pelo governo francês. E ainda há grandes partes da zona vermelha onde 99% das plantas e animais morrem. Mas limpar estes locais é extremamente perigoso, e acidentes fatais com bombas de gás ainda são muito comuns com os trabalhadores que fazem o trabalho. As autoridades estimam que se for mantida a velocidade do trabalho de limpeza da zona vermelha, o trabalho deve estar completo entre 300 a 700 anos. Ou pior, alguns especialistas acreditam que a “Zone Rouge” nunca ficará completamente livre das munições não-detonadas.

Hiram Sartori

Hiram Sartori é Doutor em Engenharia Civil, área de Hidráulica e Saneamento, e ênfase em Resíduos Sólidos, pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP(1998), Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995), Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG (1984). Tem experiência em Engenharia Civil, atuando com ênfase em Saneamento e Meio Ambiente, principalmente nas áreas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, capacitação e treinamento em gerenciamento de resíduos sólidos, administração universitária.

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