Sai de baixo!!! É veneno!!!

Aedes maiorRespondendo recentemente a uma entrevista, comentei que mais problemático que Dengue, Chikungunya, Zica e Febre Amarela juntas, é o Aedes aegypti, que transmite todas elas. E pior que ele, mas muito pior que ele, é a insuficiência ou a falta de saneamento básico em nossas cidades. Esta questão é até bem simples: faça um bom gerenciamento dos resíduos sólidos urbanos, e drene as águas paradas, que estas doenças não passarão de uma vaga lembrança em nossa história. Na oportunidade concluí que deveríamos estar neste exato momento, combatendo com maior empenho o mosquito, uma vez que na estação seca e fria, pode-se contar com o recrudescimento expontâneo da sua proliferação, tornando-se assim menos trabalhoso controlá-lo. Era hora de retomarmos a limpeza de lotes, a drenagem de águas paradas, a educação sanitária.

Na oportunidade, também comentei que a descoberta de uma vacina não resolveria jamais as nossas carências sanitárias, mais especificamente relativas ao saneamento de infra-estrutura urbana. “A remediação não substitui nunca a prevenção”, concluí, na conversa com o jornalista.

Semana passada me deparei com duas notícias que se relacionam ao meu posicionamento durante a entrevista. A primeira delas se referiu exatamente ao combate ao mosquito: em lei sancionada pelo Presidente Temer, passou a ser permitido que aviões dispersem inseticidas sobre os focos do mosquito, e tornou-se autorizada a entrada forçada em imóveis, para aplicação de larvicidas. A outra, à cuja importância para a saúde pública me rendo, refere-se aos bons resultados que estão sendo confirmados em pesquisas de uma vacina contra o Zica vírus. Já passam de vinte pesquisas, em diversos países, e em colaboração internacional!

Tais notícias podem nos levar a crer, então, que teremos luz no fim do túnel. Ou será que não? Será que a tal claridade não se trata apenas da chama trêmula de um fogo de palha? Ou seria o clarão de um tiro de canhão?

A aplicação de veneno diretamente de aviões pode vir a se tornar um tiro inócuo de canhão, muito barulho para nada, a não ser danos colaterais, uma vez que disperso na atmosfera, e em camadas bem altas, diga-se de passagem, podendo ir parar inclusive no local desejado( se der sorte), o agente químico ficará sujeito aos ventos e às chuvas, em condições favoráveis para se precipitar diretamente sobre a água e os alimentos, ou mesmo ser respirado e ingerido pelas pessoas e pelos animais. Medida já questionada por profissionais e órgãos da área da saúde e do controle de agrotóxicos, merece no mínimo uma mais aprofundada consideração técnica, e de preferência, a sua total proibição. No Brasil e em outros países, existem restrições à banalização da pulverização de veneno, como forma de controle da doença, pois já se sabe e se comprova, que o Malathion, aplicado com o fumacê( ou UBV – Ultra Baixo Volume), é ineficaz no combate e na eliminação dos indivíduos adultos do mosquito que, para sucumbirem durante a batalha, devem ser pegos em pleno vôo. Para estes indivíduos adultos, poder-se-ia necessitar de maiores dosagens ou de venenos mais fortes que o Malathion, ele próprio considerado um potencial agente cancerígeno. Além disso, uma aplicação discriminada de inseticidas colabora inevitavelmente, em algum tempo, para o aumento de resistência dos mosquitos.

A entrada forçada nos imóveis, outra permissão legal, que poderia denotar autoridade, rigor e disciplina no combate ao vetor, mas que se implanta em um momento no qual observamos quedas expressivas nos índices de segurança urbana, com exaustão da capacidade da sociedade para combater o crime, organizado ou bagunçado, se não preocupa, com certeza convida à muita ponderação. Temo que as “entradas forçadas oficiais” possam ser, em algumas situações, substituídas por “invasões de domicílio criminosas”, encenadas por elementos que se façam passar por agentes de saúde.

A vacina será verdadeiramente uma conquista, mas com certeza não está sendo desenvolvida, para nos desobrigar de todas as outras medidas de saneamento de infra-estrutura urbana, de manutenção e limpeza das edificações, e de cuidado com a saúde individual, que embasam o controle de vetores e de moléstias.

Passa já muito da hora de se demonstrar autoridade, rigor e disciplina, na implantação e na manutenção da cobertura e da qualidade do saneamento básico devido à nossa população.

As duas notícias iniciais, aqui comentadas, igualam-se em um incômodo aspecto, que é o fato de eliminarem a participação da população, como agente de mudanças. Não existe saúde pública sem a participação de todos. Não existe participação sem o devido conhecimento do papel de cada um.

Pior ainda que a nossa falta de saneamento, é despreparo de nossos representantes.

Para um melhor entendimento desta questão, indico os documentos abaixo, disponíveis nos respectivos links já associados.

Aedes aegypti: inseticidas, mecanismos de ação e resistência

Nota informativa contendo esclarecimentos sobre pulverização aérea e o controle de endemias

Avaliação dos efeitos tóxicos induzidos por malation e malaoxon

Hiram Sartori

Hiram Sartori é Doutor em Engenharia Civil, área de Hidráulica e Saneamento, e ênfase em Resíduos Sólidos, pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP(1998), Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995), Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG (1984). Tem experiência em Engenharia Civil, atuando com ênfase em Saneamento e Meio Ambiente, principalmente nas áreas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, capacitação e treinamento em gerenciamento de resíduos sólidos, administração universitária.

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