O papel dos catadores de material reciclável na cidade

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Em minha rota costumeira para o trabalho, quando parava em um posto de gasolina para abastecer meu carro, me deparei com uma figura que me chamou atenção. Um homem de cerca de 40 anos, empurrava dois carrinhos de supermercado cheios de latas vazias, que havia coletado das lixeiras e das ruas. Era um catador de latinhas, esses que a gente vê todos os dias trabalhando no centro da cidade. Nada mais interessante do que estudar e analisar de perto o ciclo dos resíduos sólidos urbanos, uma vez que é o foco do meu trabalho de mais de 30 anos.

Nossa cidade está cheia de material reciclável e por onde andamos estamos cercados pelo lixo e pelo processo de gerenciamento feito formal ou informalmente. Os catadores de material reciclável têm papel importante neste ciclo, pois transformam o lixo em novas mercadorias e o inserem no ciclo produtivo. Isso traz enorme benefícios para a natureza e para a sociedade, já que a reciclagem promove a economia de recursos naturais e de espaços para o armazenamento dos resíduos, poupando, assim, dinheiro público, e contribuindo para a sustentabilidade do ciclo do lixo.

O homem que vi empurrando suas latinhas se chama Dionísio Alvarenga Chagas. Conversando com ele descobri que sua rota de trabalho começa na região da Guaicurus, depois ele sobre a Afonso Pena até a Praça da Bandeira e desce recolhendo garrafas de PET e latinhas de alumínio. Segundo Dionísio, ele consegue entre 25 e 30 reais por viagem, fazendo cerca de duas ou três viagens por dia. Ele faz parte de um grupo de pessoas que encontram no lixo a única alternativa possível para se sustentar por meio do trabalho, ou pelo menos a alternativa mais viável devido as restrições impostas pelo mercado de trabalho.

Mesmo que nos últimos anos tenha se formado cooperativas para fortalecer a atividade e os trabalhadores, a atividade de catar material reciclável é realizada em maior parte através de relações informais, ou seja, sem registro oficial. Dessa forma, Dionísio ainda não pode contar com direitos trabalhistas, e por isso não tem nenhum apoio social caso seja vítima de acidentes ou doenças. O alto nível de informalidade dificulta que os órgãos públicos deem uma assistência maior.

As condições de trabalho nessa atividade também não são das melhores. Para que Dionísio mantenha seu salário ele fica exposto ao calor, a umidade, os ruídos da cidade, a chuva, aos acidentes de trânsito, ao contato com ratos e moscas, ao mau cheiro dos gases que vem do lixo, e a sobrecarga da mercadoria que empurra todos os dias. As condições precárias de trabalho fizeram o Ministério do Trabalho e Emprego considerar a atividade como insalubre em grau máximo, através da Norma Regulamentadora n° 15. O alerta á para que os trabalhadores do ramo tenham maior cuidado com equipamentos de proteção e locais de trabalho.

Apesar de Dionísio fazer um trabalho que beneficia a toda população, ele e outros catadores sofrem uma série de preconceitos. Catadores de material reciclável tem papel importante na limpeza urbana, coletando os resíduos das pessoas, mas a sociedade acaba desconsiderando sua própria responsabilidade como produtor do lixo. Portanto, estes trabalhadores ocupam uma posição marginal na sociedade, sem muitas oportunidades no mercado de trabalho por falta de formação profissional, e sofrendo diferentes tipos de exclusão no mercado de consumo e na dinâmica das relações sociais.  Esta exclusão acaba isolando estes trabalhadores ainda mais da sociedade, estando presos a pobreza e sem acesso a serviços públicos de qualidade.

Nossa cidade ainda é carente na coleta seletiva de resíduos, e por isso não podemos desconsiderar a importância de trabalhadores como Dionísio, que faz um trabalho importante ecologicamente e beneficiando as indústrias, que reutilizam a matéria prima diminuindo os gastos no processo de produção. Além disso, ainda diminui a produção de energia, a poluição do ar, da água e do solo e na extração de matéria-prima virgem.

Hiram Sartori

Hiram Sartori é Doutor em Engenharia Civil, área de Hidráulica e Saneamento, e ênfase em Resíduos Sólidos, pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP(1998), Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995), Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG (1984). Tem experiência em Engenharia Civil, atuando com ênfase em Saneamento e Meio Ambiente, principalmente nas áreas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, capacitação e treinamento em gerenciamento de resíduos sólidos, administração universitária.

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