Artigo: Gerenciamento de Resíduos de Construção Civil em Belo Horizonte

construção civil - sartori

 

O gerenciamento dos resíduos de construção civil ainda precisa de um planejamento mais rigoroso em Belo Horizonte. Esse foi o resultado do trabalho de pesquisa feito por mim e meu colega Prof. Paulo Fiuza, juntamente com os alunos Fernanda Camargos, do curso de Engenharia Civil, Leandro Baeta e Rafael Glauss, alunos de Engenharia Ambiental, da Faculdade FUMEC. O grupo fez um trabalho de pesquisa em campo para conhecer as práticas relativas ao gerenciamento dos resíduos de construção civil, na capital mineira.

A base de dados usada no trabalho foram os projetos de construção e reforma, aprovados em Belo Horizonte, de julho a dezembro de 2007, num total de 808 eventos, publicados no Informador das Construções. Dentre eles estavam empreendimentos iniciais residenciais de construção civil, com até 12 pavimentos, das administrações regionais Pampulha, Oeste, Centro-sul e Nordeste da Prefeitura de Belo Horizonte.

Durante as entrevistas podemos concluir que há falta de controle e previsão precisa da produção de entulho. Sem uma meta é difícil reduzir a produção dos resíduos. Das 28 obras visitadas, 19 utilizam a expressão “caçamba”, 7 não souberam informar e apenas 2 referem-se a algum tipo de taxa de geração. Questionada qual a estimativa de geração de entulho, a resposta revelou total ausência de valores estatísticos precisos. 17 das obras admitem taxas igual ou inferiores a 2,0 m3/d; 11 referem-se ao período de uma semana, 3 informaram geração de entulho por área construída, 7 não informaram por falta de controle ou de dados.  Apenas 1 obra informou a existência de programa de qualidade que estabelece taxa mínima de geração de entulho, em função da área construída (10m3/m2).

Os autores do trabalho também pesquisaram sobre o órgão que orientou a empresa sobre o Gerenciamento de Resíduos Sólidos na Construção Civil (PGRCC). A resposta foi preocupante: 20 obras afirmaram não ter recebido orientação, 5 mencionam gestão empírica ou por conta própria, 3 indicaram a PBH, 2 indicaram o Departamento de Qualidade da empresa e 1 indicou o Departamento de Segurança do Trabalho da empresa. E mais: das 28 obras visitadas, 28 informam inexistir um PGRCC.

Na prática os resíduos são considerados como algo sem conexão com a obra, que não depende de esclarecimento, e que já é do conhecimento de todos, merecendo apenas orientação tácita. O entulho não é quantificado com precisão, ou nem é quantificado. Para se ter uma ideia, a maioria dos envolvidos acha que o entulho das obras é um problema de menor complexidade ou não é um problema. A “Caçamba” está sendo considerada uma unidade de volume, em detrimento do metro cúbico, e o peso, mais indicado para referência à produção de materiais não homogêneos, como o entulho, nem é mencionado. Entende-se, então, que a presença da caçamba, por facilitar o acondicionamento daqueles itens inservíveis, incentiva a sua produção, principalmente se retirada de forma automática, uma vez por semana, como citado por diversos entrevistados.

Quanto ao acondicionamento dos resíduos, observa-se principalmente o entendimento de que basta amontoá-los ou ajuntá-los, de forma organizada, não sendo necessária qualquer adequação ao recipiente e sua localização. E o transporte externo e destinação? As respostas neste caso convergem claramente para a destinação ao aterro sanitário, por meio de caçambas. Apenas uma resposta indica utilização dos resíduos na obra, e diversas respostas referem-se ao desconhecimento do destino final correto que será dado aos resíduos.

Com o trabalho, concluímos que o que mais dificulta o gerenciamento dos resíduos da construção civil é a falta de conhecimento e capacitação para as atividades exigidas no GRCC, e ainda a falta de planejamento do espaço físico do canteiro de obras. Há necessidade de melhores projetos de canteiros de obras, definição da destinação final de cada parcela dos resíduos e a participação ativa das prefeituras no gerenciamento dos resíduos.

Os principais problemas dessa falta de planejamento com os resíduos sólidos são acidentes, desperdício e insalubridade. E isso não afeta somente o canteiro de obras. Os impactos ambientais no entorno da obra também são preocupantes, como a poluição sonora, poluição atmosférica, interferência com o trânsito, limpeza urbana, entre outros.

A solução sugerida depois de analisar tais dados, quanto as condições necessárias à divulgação e adoção das melhores práticas de geração de entulho é que a prefeitura tenha uma posição mais ativa no processo. Ela deve assumir mais do que apenas a concessão da coleta: ela deve assegurar a coleta regular dos recicláveis da construção civil; fiscalizar a coleta de entulho por meio de caçamba; exigir projeto de arranjo físico de canteiros de obras e PGRCC para obras menores; implantar de aterros de inertes, para destinação de RCC; e fazer um catálogo de soluções para resíduos perigosos.

As construtoras também devem se preocupar mais com o entulho. A solução é estabelecer programas de qualidade nas obras, e neles incluir a redução de perdas e da geração de entulho, por meio da capacitação do seu corpo produtivo.

Hiram Sartori

Hiram Sartori é Doutor em Engenharia Civil, área de Hidráulica e Saneamento, e ênfase em Resíduos Sólidos, pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP(1998), Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995), Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG (1984). Tem experiência em Engenharia Civil, atuando com ênfase em Saneamento e Meio Ambiente, principalmente nas áreas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, capacitação e treinamento em gerenciamento de resíduos sólidos, administração universitária.

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1 Resultado

  1. Ramieller Douglas disse:

    Gostaria de ter acesso ao artigo.
    Sou graduado em engenharia ambiental e meu TCC teve o mesmo tema, mas com foco em segregação correta de resíduos para agregar mais valor à venda destes, bem como na redução de desperdícios.

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