Nada contra a reciclagem, mas é preciso aumentar a redução

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Reciclar o lixo é uma boa maneira de diminuir seus riscos para o meio ambiente. Sem dúvida é uma prática útil e que gera alguma renda para milhares de famílias. Mas é preciso cautela ao se tratar do assunto! O foco de como resolver o problema do lixo excessivo, não é criar uma cultura de supervalorização da reciclagem, mas sim assumir a atitude da redução do consumo dos bens materiais, que em última análise, se relacionam aos recursos naturais. Consultado pelo jornal O Tempo, discutimos a  percepção sobre o que se deve fazer com o lixo nosso de cada dia.

Se a reciclagem for vista como um negócio que gera lucro, dificilmente haverá preocupação em diminuir a produção de lixo, e isso é muito grave. O lixo não é uma mercadoria, ele é um problema, e tem que ser tratado como uma questão de saúde pública. A solução para resolver o problema do excesso de lixo está na minimização, ou melhor, na não geração. Observe-se que, se Belo Horizonte reduzir a produção de lixo em qualquer percentual, a vida útil do aterro sanitário aumentará, gerando de alguma forma, economia  para a prefeitura, e um IPTU menos indigesto para mim e para você!

De maneira nenhuma estou  a dizer que a reciclagem não seja necessária, já tendo mesmo defendido o tema aqui no blog, mas sim que ela deve ser limitada ao que for necessário, depois de se ter conseguido deixar de gerar as maiores quantidades possíveis de resíduos sólidos. Básica e conceitualmente, e garantir esta dimensão é importante, o melhor não é reciclar o plástico, mas sim não ter o plástico para ter de ser reciclado. Esta abordagem é a que melhor garante a sustentabilidade, porque exige que desde o projeto e a fabricação de um bem de consumo, sejam incorporadas medidas e opções que garantam a sua reutilização, e a mínima geração de resíduos que for possível, durante o seu ciclo de vida.

Dizer que reciclagem dá lucro é propaganda enganosa. O único e verdadeiro ganho decorrente de se evitar a produção de resíduos sólidos, é a preservação ambiental. Um primeiro aspecto que  indica que a reciclagem não deve ser supervalorizada,  é o fato de que nem todo item descartado pela população é reciclável. Além disso, para alguns itens a reciclagem é muito dispendiosa, gerando efluentes gasosos, líquidos, e até sólidos!

À época da entrevista para aquele periódico, a coordenadora substituta da assessoria ambiental de Porto Alegre, Maria Angélica Mallmann, reconheceu que, a realidade em nosso país é que “ainda trabalhamos com as consequências, e não com as causas do lixo. É preciso desencadear um movimento que procure solucionar as causas do lixo”, declarou.

Segundo levantamento do IBGE, dois terços dos municípios brasileiros ainda não tinham Plano de Gestão Integrada de Resíduos Sólidos em 2013. Não bastasse esta dívida da municipalidade, em relação ao direito de seus habitantes, os planos, que são conquista da Política Nacional de Resíduos Sólidos desde 2010, são pré-requisito para que as cidades obtenham recursos do governo federal, financiamentos, incentivos ou crédito na área de limpeza urbana e de resíduos sólidos, tornando a sua inexistência ainda mais danosa à população, que no final de tudo é quem paga as contas.

No mesmo sentido do foco aqui adotado, levantamentos mais recentes, elaborados pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, indicam uma evolução lenta nos índices de cobertura por coleta seletiva, confirmando que a reciclagem, além de não ser a solução definitiva, também é de custosa implantação, quer seja pelas dificuldades inerentes à mudança de atitude que ela exige, por parte da população, quer seja pela insuficiente prioridade política em geral atribuída a este tema, em nosso país. Este levantamento, na íntegra, pode ser acessado no site do próprio SNIS.

Estatística coleta RS SNIS

Em que pese o fato de que a recuperação mais eficiente de resíduos, para a reciclagem, normalmente equivalerá a menos de 50% do lixo produzido na cidade, uma vez que é desta ordem o percentual de itens recuperáveis para a reciclagem, ainda não seria o caso, no meio urbano, de abandona-la, pelo menos até começarmos a fazer e a falar mais de redução, do que de reciclagem.

Hiram Sartori

Hiram Sartori é Doutor em Engenharia Civil, área de Hidráulica e Saneamento, e ênfase em Resíduos Sólidos, pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP(1998), Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995), Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG (1984). Tem experiência em Engenharia Civil, atuando com ênfase em Saneamento e Meio Ambiente, principalmente nas áreas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, capacitação e treinamento em gerenciamento de resíduos sólidos, administração universitária.

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