Monte Testaccio: O maior aterro sanitário da Roma antiga

Conheça o depósito de lixo de mais de 2.000 anos

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Você já parou para pensar como se cuidava do lixo há dois mil anos atrás? Através de escavações já se pode constatar que na Roma antiga era comum o uso de aterros, e em sua periferia, próximo às margens do Rio Tibre, se encontra o maior aterro do mundo antigo, o Monte Testaccio. Mesmo nos dias de hoje ainda se pode ver um morro coberto de grama e pequenas árvores, que um dia foi um antigo aterro da época romana. Sua base tem cerca de um quilômetro de circunferência, e ele ocupa uma área de 20 mil metros quadrados, com até 40 metros de altura.

Il Monte Testaccio

Essa colina é toda feita de cacos empilhados de ânforas romanas, que são um tipo de recipiente de cerâmica que era usada para transportar o azeite. Vinho, e principalmente o azeite, que era produzido na região onde hoje se encontra a Espanha, iam para Roma para quitar os valores dos impostos, devidos ao império romano, ou por outra, à própria Roma. Estima-se que a colina tenha os restos de 53 milhões de ânforas de azeite, onde cerca de 6 bilhões de litros de óleo foram transportados.

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Mas engana-se quem pensa que o Monte Testaccio era um depósito de lixo desorganizado. Estudos recentes constataram que o aterro foi calculado exatamente para o seu propósito, e provavelmente foi administrado por uma autoridade do estado. Em 1991 detectou-se que uma série de terraços nivelados, ou plataformas, com muros feitos de ânforas, para a contenção dos cacos daqueles recipientes, estão presentes ao longo de toda a elevação do monte, dispostos em alguns lugares para que servissem de caminhos para os trabalhadores que realizavam a disposição destes resíduos.

Durante a construção do aterro do Monte Testaccio, os recipientes já esvaziados, que eram descartados no porto de Roma, tinham de ser levados em lombo de burro,  até o local da disposição. Os recipientes já vazios não podiam ser reutilizados, porque os restos de óleo penetravam na argila, e o azeite transportado nestas ânforas reutilizadas, se tornava rançoso, depois de um certo tempo. A mesma restrição era válida, quando as ânforas tivessem transportado vinho. Para economia de espaço, as ânforas eram então quebradas e depositadas no monte, sendo em seguida cobertas com cal virgem, para eliminar o odor  forte do azeite e do vinho em decomposição.

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O Monte Testaccio tem sido muito importante para se descobrir detalhes da vida romana no período antigo, desde o primeiro século antes de Cristo. As ânforas contêm bastante informação da vida naquele tempo, pois no gargalo de cada uma, encontra-se escrito em relevo um selo do produtor, semelhante a um rótulo das garrafas atuais, onde também se informa o peso do óleo contido no vaso, o lugar de origem, e até o nome do exportador. Através desse estudo, os arqueólogos chegaram a conclusão de que durante o século II d.C., 130 mil ânforas eram depositadas no aterro, a cada ano. Roma importava pelo menos 7,5 litros de azeite por ano, para cada romano, o que significa uma enorme demanda por óleo, já que a população era de cerca de um milhão de pessoas.

A dúvida que resta aos estudiosos, e também para mim, Hiram Sartori, é o motivo pelo qual o Monte Testaccio foi usado como aterro só para os recipientes de azeite. Talvez o formato das ânforas ou o material usado em sua fabricação impedissem a sua utilização para outras finalidades. Outros tipos de ânforas, usadas para transportar o mesmo tipo de produto eram reutilizadas para servir em outros propósitos, como tubos de drenagem ou vasos de flores, ou ainda usadas como material de construção na fabricação de concreto.

Pode ser que este seja o primeiro caso de embalagens não retornáveis da história!

Hiram Sartori

Hiram Sartori é Doutor em Engenharia Civil, área de Hidráulica e Saneamento, e ênfase em Resíduos Sólidos, pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP(1998), Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995), Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG (1984). Tem experiência em Engenharia Civil, atuando com ênfase em Saneamento e Meio Ambiente, principalmente nas áreas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, capacitação e treinamento em gerenciamento de resíduos sólidos, administração universitária.

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