Entrevista: discussão sobre minha pesquisa de mestrado e como a cidade deve traçar mudanças em relação ao tratamento do seu lixo

lixo urbano - sartori

Certa vez concedi uma entrevista ao Diário do Comércio onde pude falar sobre a pesquisa que realizava para a minha dissertação de mestrado intitulada “Discussão sobre a Caracterização de Resíduos Sólidos Urbanos” na Universidade Federal de Minas Gerais. Na ocasião, falei sobre a necessidade para análise local do problema do lixo, com envolvimento máximo da caracterização dos resíduos.

A primeira amostragem da pesquisa se deu dentro da PUC Minas que começara em 1991, e apresentava uma população de 15 mil pessoas, com bastante produção de papel, material orgânico, semelhante a uma cidade. Numa segunda etapa, analisei o lixo de toda Belo Horizonte. Pude observar os fatores que interferiam nas características do lixo, e os dividi em seis categorias: econômicos, geográficos, histórico, operacional, social e urbano.

Pude constatar que os fatores histórico e geográfico são os mesmos para todas as regiões, já que o plano econômico é uma questão histórica e atinge a cidade inteira. No que diferencia sua atuação é devido ao fator social e econômico, que são os dois fatores mais importantes quanto a caracterização do lixo. Saber o porquê e de onde o lixo vem é essencial para o planejamento da sua coleta e tratamento.

As atitudes da população interferem amplamente na quantidade de lixo e na sua possibilidade de ser tratado. Sabendo que sempre teremos lixo em nossa casa, o que podemos fazer para ajudar no problema? Ter o mínimo de lixo e melhorar as condições com que o jogamos fora, facilita a reciclagem. O fator econômico interfere nas atitudes das pessoas, mas não é um fator projetável, ao contrário do fator social. São atitudes, hábitos, percepções ambientais da população que são projetáveis. A tese, então, afirma que é preciso trabalhar no social para melhorar o lixo.

Isso pressupõe que até um certo ponto a administração do município consegue mudar o lixo, através da coleta, da reciclagem, mas o lixo só deve melhorar se cada pessoa se envolver no processo. Já que é um fator de saúde pública, toda sociedade deve assumir uma postura que vise a conservação ambiental pela redução da geração de resíduos sólidos, pelo aumento do índice de reciclagem e ainda pela redução do lançamento de lixo sobre o solo. Não adianta ficar postergando as soluções para as administrações futuras; a população cresce e o lixo também.

E não existe solução pronta para toda a cidade. Segundo meus estudos, propus analisar a cidade e dar a cada área sua solução adequada. Por exemplo, se é uma área da cidade com grande concentração de edifícios comerciais e muita produção de papel, devem ter pessoas para coletar estes papéis e assim ele não se misturará com o material orgânico e poderá ser reciclado. Só de haver a separação da matéria orgânica da não-orgânica já faz uma grande diferença.

Existem várias formas de tratar o lixo, como a compostagem ou coleta seletiva, mas não posso afirmar qual é o melhor. É preciso ter capacidade para usar um método conforme a necessidade de cada região, até por uma escolha financeira já que posso reduzir custos de coleta e de funcionários. E o mais importante é que o lixo produzido em uma área será tratado naquele local. Muitas vezes o município não tem dinheiro para implantar uma grande usina, mas pode começar por soluções menores e daí construir de forma gradativa. E o mais importante: a população deve ser a primeira a realizar mudanças.

Hiram Sartori

Hiram Sartori é Doutor em Engenharia Civil, área de Hidráulica e Saneamento, e ênfase em Resíduos Sólidos, pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP(1998), Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995), Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG (1984). Tem experiência em Engenharia Civil, atuando com ênfase em Saneamento e Meio Ambiente, principalmente nas áreas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, capacitação e treinamento em gerenciamento de resíduos sólidos, administração universitária.

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