Como o lixo é tratado em Taiwan

Recentemente fui apresentado a um programa de rádio para a web (um podcast) chamado 99% Invisible. Gostei muito!

A recomendação veio devido a um episódio específico do programa que aborda a coleta de lixo em Taiwan. Como o assunto me interessa especialmente, resolvi traduzir o texto de apresentação do episódio, e disponibilizar a todos, em português, para ampliar o alcance desta interessante publicação.

O episódio completo pode ser visto aqui (em inglês), e recomendo que o ouçam. Se fizermos as devidas adaptações, vamos perceber que nós, brasileiros, também precisamos rever muitos de nossos conceitos e aprender com o exemplo de Taiwan. Caso o idioma seja uma barreira, eis a tradução do episódio:

Separation Anxiety(A ansiedade da sepaparação)

Avery Trufelman

“Für Elise” é uma das peças mais amplamente reconhecidas do mundo da música. Esta melodia composta por Beethoven, já foi tocada por pianistas de todo o mundo, e seu reconhecimento quase universal tem sido usado para atrair clientes, tanto para as empresas grandes como McDonald´s, quanto para aquelas outras, tão pequenas quanto os caminhões de sorvete das cidadezinhas norte-americanas. Mas se você ouvir a música tocando nas ruas de Taiwan, acompanhada pelo barulho baixo de um motor, o único sorvete que você vai encontrar se você seguir a melodia, serão os sorvetes do lixo de uma loja da Häagen-Dazs. Em Taiwan, escutar “Für Elise” significa que é hora de tirar o seu lixo. e levá-lo diretamente para o caminhão. Você mesmo.

Na capital de Taipei, os caminhões tocam duas músicas diferentes ao longo de suas rotas de coleta de lixo (a outra música é a “Oração de uma donzela”, ou “A Maiden’s Prayer”, composta por Tekla Bądarzewska-Baranowska).

Cinco noites por semana os moradores de Taipei se colocam nas esquinas designadas, onde os caminhões de lixo amarelo vão parar por alguns minutos (e desligar a música), para que as pessoas possam entregar seus sacos de lixo.

Apesar do caos que por vezes resulta quando uma rua inteira corre para o mesmo veículo, o sistema de coleta empregado antes da implementação deste formato, era muito mais desagradável.

Antes da implementação dos caminhões musicais (em vigor desde a década de 1980), os cidadãos de Taipei amontoavam seu lixo em grandes lixeiras, cheias de pragas e infestações, colocadas nas esquinas da cidade. O lixo transbordava e apodrecia no clima tropical. O cheiro era terrível. Claro que isso atraía muitos ratos, além de baratas, moscas e outros vetores. Em meados da década de 1980, Taiwan se voltou para um processo de democratização, tentou expandir a indústria, e queria atrair turistas. A ideia então era que ruas mais limpas, ajudariam a cimentar a sua reputação como um país membro do primeiro mundo.

Durante a revitalização ambiental decorrente deste processo, a agência de proteção ambiental de Taiwan concebeu este novo sistema de coleta musical, mantido pela população e incentivado pela aplicação de penas severas, para o seu não cumprimento. De acordo com o mito popular, “Für Elise” foi escolhido como o cartão de chamada, porque o chefe da agência de proteção ambiental naquele momento, tinha uma filha que iria praticar a música ao piano, com frequência.

Hoje em dia, quem visitar Taipei não saberá que a cidade ostumava ter pilhas de lixo espalhadas pelas ruas. Os caminhões de lixo vem e vão regularmente, passando e parando até três vezes por dia, cinco dias por semana, em suas rotas pela cidade. Depois do trabalho ou antes de dormir, os moradores se reúnem e, de posse de seus resíduos, esperam nas esquinas designadas pela chegada do grande caminhão amarelo.

Os caminhões só aceitam sacos de lixo oficialmente sancionados pelo governo de Taiwan, na cor azul, de fácil identificação, decorados por um selo oficial. Os recipientes variam de preço e tamanho, desde 3 até os 120 litros. O saco mais popular é o de 25 litros (semelhante a um saco para lixeira pequena), vendido em pacotes de 20 unidades, que custam cerca de US $ 5. Desta forma o modelo de coleta adotado, que obriga o uso de sacos plásticos padronizados e pagos, torna-se mais caro para quem produz mais lixo, incentivando os cidadãos a reciclarem e a adorarem a compostagem do lixo orgânico, tanto quanto for possível, uma vez que esses serviços (reciclagem e compostagem) são oferecidos gratuitamente.

Os caminhões de coleta musicais são sempre acompanhados por um caminhão de reciclagem, no qual os operários ajudam os moradores a depositar seus resíduos recicláveis, em treze caixas distintas, identificadas por tipo de material, e os resíduos destinados à compostagem. Caso as pessoas não consigam destinar seus materiais adequadamente, o governo as multa em até US $ 200.

Se tudo isso soa um pouco complicado e tedioso, é porque, bem …  é mesmo. Pelo menos para os americanos. É difícil imaginar um sistema como este funcionando em países como os Estados Unidos. Cada cidade nos EUA tem um método diferente e próprio de coleta de lixo, mas em todos os casos se igualam, no fato de que os sistemas norte-americanos de recebimento e tratamento de lixo, se esforçam para ser invisíveis. Os caminhões fazem grandes esforços logísticos para passar e recolher o lixo quando as pessoas estão trabalhando ou dormindo (ou tentando dormir), e sua presença visa sempre minimizar o impacto no trânsito. Os americanos acondicionam o lixo e os recicláveis em caixas, jogam nos coletores ou os amontoam em uma lixeira, e o lixo desaparece das vidas das pessoas, sem deixar vestígios.

De acordo com a Agência de Proteção Ambiental americana, EPA, os americanos reciclam e fazem compostagem com cerca de 34% do seu lixo, um percentual inferior à da maioria dos países ricos. Isto se dá, em parte, porque os diferentes sistemas, em todo o país, são separados e independentes. Os EUA tem cerca de 9.800 diferentes usinas de reciclagem municipais, cada uma operando sob um conjunto diferente de regras, postas em prática pelas respectivas municipalidades ou empresas contratadas.

Assim, é de se esperar que algumas cidades norte-americanas façam um trabalho melhor do que outras. Em São Francisco, uma empresa privada chamada Recology cuida dos resíduos da cidade, além da reciclagem e compostagem. Seu sistema, pago por proprietários de imóveis e senhorios, consegue reciclar cerca de 90% de tudo o que é possível ser reciclado.

A Recology criou alguns incentivos semelhantes aos do sistema implementado em Taipei. Como exemplo, os recipientes usados no servço de coleta de lixo, são muito mais caros do que os usados no serviço de coleta de material para reciclagem ou para a compostagem. Ainda assim, porém, o foco principal da Recology é manter os clientes satisfeitos, o que significa tornar o processo o mais simples que for possível, livre de estresse para o usuário final (cidadãos, como eu e você). Para tanto, enviam um caminhão para a sua rua, para pegar o lixo, e nem sequer esperam que você classifique ou separe o seu próprio papel ou plástico. Em vez disso, recolhem tudo, latas de metal misturadas com garrafas de plástico misturadas com pedaços de papel, e enviam este lixo todo, para um centro de reciclagem, que  processa mais de 600 toneladas diárias de material recuperável para a reciclagem.

Na empresa os materiais recicláveis passam por um extenso trajeto ao longo de uma complexa série de esteiras transportadoras, e são separados em 16 categorias de materiais, por uma equipe de 173 pessoas. P{ode-se dizer que é um processo composto por uma série de sistemas complexos e automatizados, que utilizam maquinaria especializada da Recology.  A empresa usa de tudo: desde ímãs a escadas de peixes, e sensores ópticos, para a classificar materiais recicláveis. Ao usar estas tecnologias avançadas, empregando uma grande quantidade de operários, obviamente ocorre um acréscimo significativo de custos para a sua operação, que é então repassado para o consumidor/produtor(eu e você). Esta reciclagem de fluxo contínuo, com uma ou duas categorias de materiais entregues na coleta, também faz com que o ato de reciclar seja mais fácil para as pessoas que, de outra forma, não poderiam fazê-lo em sua plenitude. Esta dificuldade de separar existe talvez porque os cidadãos estejão confusos sobre que tipo de plástico vai em cada um dos diferentes recipientes, ou simplesmente porque eles preferem fazer outra coisa. Cada sistema tem suas próprias vantagens e desvantagens, mas Taiwan parece ser um exemplo de uma revolução em larga escala na gestão de resíduos, e que tem tido êxito junto a toda a sua população.

Talvez as coisas seriam diferentes para os norte-americanos se todos tivessem que assistir o lixo se acumular em suas casas, sem levá-la para uma lixeira ou jogá-lo para baixo um duto – sem ele magicamente desaparecer com relativamente pouco esforço da parte do cidadão. Seria certamente uma mudança se eles tivessem de reservar tempo dos seus dias para pegar o lixo, separá-lo do material para reciclagem e entregar pessoalmente aos caminhões vindos da rua. Eles poderiam, como em Taiwan, começar a produzir menos lixo, ou pelo menos descobrir que é possível reciclar e fazer compostagem com o lixo que produzem. Mas, novamente, ouvir as mesmas duas canções, noite após noite, cinco noites por semana, pode também começar a conduzir lentamente todos a um processo de insanidade.

Hiram Sartori

Hiram Sartori é Doutor em Engenharia Civil, área de Hidráulica e Saneamento, e ênfase em Resíduos Sólidos, pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP(1998), Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995), Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG (1984). Tem experiência em Engenharia Civil, atuando com ênfase em Saneamento e Meio Ambiente, principalmente nas áreas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, capacitação e treinamento em gerenciamento de resíduos sólidos, administração universitária.

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1 Resultado

  1. 14 de junho de 2016

    […] que o prof. Hiram Sartori também enfrenta o problema do idioma com seus alunos e resolveu traduzir o texto de apresentação do episódio que eu buscava. Legal […]

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