Coleta de lixo sem caminhão?

A coleta de resíduos sólidos urbanos, tradicionalmente realizada por caminhões coletores compactadores, causa diversos problemas ambientais. Entre estes problemas podem ser citados o represamentos ao tráfego de outros veículos, já que deve ser lenta, para possibilitar que os operários recolham o lixo porta a porta; a emissão de ruídos inerentes á atividade de coleta e de compactação dos resíduos, tudo realizado com equipamentos mecânicos, com partes móveis metálicas; a emissão de fumaça dos veículos, geralmente movidos a diesel; e exalação de maus odores, das substâncias orgânicas como restos alimentares, em constante decomposição dentro dos caminhões.

Uma solução alternativa, que elimina estes transtornos inevitáveis da coleta e do transporte de resíduos sólidos urbanos, vem se tornando cada vez mais interessante, e já é utilizada por pelo menos 50 cidades européias. Esta solução “imita” exatamente o que já se faz há décadas, nos sistemas de abastecimento e distribuição de água potável, energia elétrica e gás, e também nos sistemas de coleta de esgotos sanitários e de esgotos pluviais. O Sistema Pneumático de Coleta de Resíduos Sólidos Urbanos utiliza uma rede subterrânea, colocada sob as edificações e as vias públicas. Esta rede é composta por condutos, desviadores e bombas, e faz a coleta de lixo pelo subsolo, a velocidades de até 70km/h, sem que os habitantes vejam o lixo circulando pela cidade, eliminando todos os inconvenientes da coleta tradicional.

O sistema pneumático de coleta foi utilizado pela primeira vez na cidade de Barcelona, por ocasião dos Jogos Olímpicos de 1992, implantado na vila olímpica, construída exclusivamente para o evento. Atualmente 160 caminhões de lixo já deixaram de circular pela capital catalã, em virtude da implantação do sistema, e 70% do lixo daquela cidade, já é coletado desta forma.

No sistema pneumático, as pessoas podem descartar seus resíduos segregados por tipo (plástico, papel, papelão, latas de alumínio e matéria orgânica) a qualquer hora, em pontos de descarte localizados próximo às edificações, em áreas públicas. Em algumas instalações os resíduos podem ser descartados sem segregação. Os resíduos passam então a ser conduzidos pelo ar em movimento, através das redes subterrâneas, até instalações centrais de coleta, que garantem a pressão de sucção da rede. Nestas centrais de coleta, localizadas na periferia das áreas habitacionais, os materiais são compactados e acondicionados em contenedores específicos para cada tipo de lixo. Depois de cheios estes contenedores são transportados sobre caminhões, para estações de triagem e recuperação, ou até às indústrias que consomem estas matérias-primas, que foram recuperadas do ciclo de resíduos. A matéria orgânica que também foi separada, é encaminhada para reatores anaeróbios, para recuperação energética e produção de energia elétrica.

Comparada ao sistema convencional de coleta de resíduos sólidos urbanos, com caminhões coletores compactadores, esta opção apresenta inúmeras vantagens, como por exemplo:
– elimina a retenção que os veículos coletores causam ao trânsito de outros veículos, já que os caminhões passam a circular apenas a partir das centrais de coleta, situadas na periferia das áreas habitacionais;
– suprime os ruídos da coleta, uma vez que não utiliza mais os caminhões, mantendo a atividade de compactação in door, em áreas distantes das regiões residenciais;
controla a emissão de maus odores, uma vez que captura e trata nas centrais de coleta, todo o ar utilizado na movimentação dos resíduos, filtrando-o e removendo todos os seus poluentes e agentes de odor;
– uma vez que não utiliza os caminhões de coleta, reduz o uso dos combustíveis fósseis, contribuindo para a preservação das reservas, e também para o controle da emissão de gases de efeito estufa, configurando inciativa alinhada com a redução do aquecimento global;
– cria condições para o melhor aproveitamento de nosso potencial hidrelétrico, já que utiliza a eletricidade como fonte de energia para o funcionamento da maior parte de suas instalações;
– dispensa o uso de recipientes de acumulação de resíduos, normalmente pouco estéticos e muito atrativos de vetores, facilitando a higienização dos locais de descarte;
elimina a necessidade de abrigos de resíduos, liberando espaço para usos arquitetônicos mais nobres nas edificações;
– incentiva a participação das pessoas no gerenciamento dos resíduos, mantendo a cidade mais limpa, e podendo instalar pontos de coleta internos ás edificações, o que já ocorre em Barcelona pelo menos há 20 anos, no caso dos novos empreendimentos;
– apesar dos custos de implantação eventualmente elevados, a prática tem demonstrado que com o tempo os gastos se diluem, equivalendo aos custos do sistema tradicional, ou até ficando menores.

No Brasil ainda há obstáculos para a implementação do sistema de coleta pneumática. Sem dúvida o processo esbarra na questão de infraestrutura, pois o sistema tem que ser instalado rua a rua. Além disso, um plano de desenvolvimento da tecnologia é complexo e não é simples de se projetar. Por outro lado, com o crescimento da população urbana e o aumento de lixo que isso inevitavelmente ocasiona, o gerenciamento convencional de resíduos não conseguirá atender sozinho às nossas necessidades urbanas. A coleta pneumática de resíduos, a médio e longo prazos inevitavelmente fará parte do planejamento da infraestrutura urbana, junto com a distribuição de água e a coleta de esgotos.

Hiram Sartori

Hiram Sartori é Doutor em Engenharia Civil, área de Hidráulica e Saneamento, e ênfase em Resíduos Sólidos, pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP(1998), Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995), Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG (1984). Tem experiência em Engenharia Civil, atuando com ênfase em Saneamento e Meio Ambiente, principalmente nas áreas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, capacitação e treinamento em gerenciamento de resíduos sólidos, administração universitária.

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1 Resultado

  1. 28 de novembro de 2016

    […] já comentei aqui antes, as vantagens são imensas: a pessoa pode depositar o lixo a qualquer momento, há uma […]

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