O problema da coleta seletiva e desperdício em Belo Horizonte

Existe um problema grave de coleta seletiva em Belo Horizonte. Apenas 14% da população é atendida pela coleta de lixo seletivo e a cidade não trata o serviço como prioridade nem sequer conta com metas para ampliação do programa. Em matéria para o Estado de Minas pude comentar sobre os dados que foram levantados sobre a capital e demais municípios de Minas, e sobre como isso afeta a prefeitura financeiramente e gera outros problemas de resíduos urbanos.

O Estado de Minas apurou que não há intenção de aumento de coleta seletiva de lixo em Belo Horizonte. Os locais de entrega voluntária ainda diminuíram em 35% passando de 150 para 97 contêineres, em 2012. A superintendência de Limpeza Urbana explicou na época que existiam outros problemas de limpeza urbana, como bota-foras, que representam riscos à saúde pública. E mesmo os locais de entrega voluntária foram depredados pela população.

No final das contas apenas cerca de 2% das 283.824 toneladas de material reciclável descartado por ano em Belo Horizonte vão para coleta seletiva. Com isso, a estimativa é de que BH jogue literalmente no lixo R$ 75,5 milhões em resíduos sólidos que poderiam ser reciclados.

Mesmo com as dificuldades eu acredito que a importância de ampliar a coleta seletiva é muito grande. O amplo volume de lixo ocupa o aterro sem necessidade, que acaba tendo seu tempo de uso reduzido. Encurtar a vida útil do aterro significa ter que pagar outro mais longe e mais caro. Sem o investimento em coleta seletiva a estagnação dos planos para mudança nesse cenário persiste. Belo Horizonte não tem a elaboração do plano municipal de gestão integrada de recursos sólidos, planejamento obrigatório de acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela Lei Federal 12.305/2010. Sem o planejamento, a cidade fica impedida de solicitar recursos para limpeza urbana ao governo federal, e, como afirma a matéria, impede a prefeitura de começar a construir mais galpões de reciclagem.

Outro ponto importante levantado pela matéria é um problema que começa nas indústrias. Os catadores e gestores ambientais argumentam que a indústria de embalagens lança produtos que não tem demanda para reciclagem. Uma das soluções que aponto para este problema é que pelo menos um percentual da produção de embalagens teria que usar matéria-prima vinda da reciclagem.

Para alcançar uma mudança maior ainda é preciso mudar os padrões de comportamento da população. A educação deve ser o principal investimento para a coleta seletiva. Quando se investe em mudança de comportamento, há oportunidade de as pessoas participarem dessas ações que se tornam parte da cultura, e não mera obrigação. É a forma mais eficiente de investir na coleta seletiva.

Para que esse processo tenha eficácia, esse material deve ser recolhido e levado aos galpões dos produtores. Mas segundo apuração da matéria, a coleta seletiva não é uma prioridade da prefeitura. Os galpões estão saturados e não tem espaço para receber mais material da coleta seletiva. A superintendência de Limpeza Urbana ainda afirma que há dificuldade com a mão de obra, pois muitos catadores migraram para a construção civil. Podemos assim dizer que o problema da coleta seletiva de lixo é tanto cultural como estrutural e deve ser repensado.

Hiram Sartori

Hiram Sartori é Doutor em Engenharia Civil, área de Hidráulica e Saneamento, e ênfase em Resíduos Sólidos, pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP(1998), Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995), Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG (1984). Tem experiência em Engenharia Civil, atuando com ênfase em Saneamento e Meio Ambiente, principalmente nas áreas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, capacitação e treinamento em gerenciamento de resíduos sólidos, administração universitária.

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