Caracterização geotécnica de lodos de estação de tratamento de água

Trabalho estudou o uso de ensaios de solos na caracterização do lodo e abriu portas para novas possibilidades

Mostrando mais uma vez a importância da reutilização e do tratamento do resíduos sólidos, eu, Hiram Sartori, trabalhei juntamente com o especialista em Planejamento Territorial e Urbano, Marcus Soares, em uma pesquisa que investigou a possibilidade da utilização de lodos provenientes de estações de tratamento de água e de estações de tratamento de esgotos domésticos, como material de construção.  No artigo, que foi apresentado no 19o Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental, testamos a utilização de ensaios, normalmente usados na mecânica dos solos, para a caracterização dos lodos provenientes destas unidades.

Soares e eu inicialmente encontramos dificuldades no uso dos ensaios para o manuseio do lodo de estação de tratamento de esgotos. Tanto seco quanto úmido, o lodo foi tido como inadequado para ser usado por estes meios, já que ele se compõe de partículas finas e coloidais e passou quase integralmente na peneira de número 200.

Já no caso do lodo sedimentado do decantador da ETA, o resultado foi positivo. O nosso estudo reconheceu como válida e pertinente o uso dos tradicionais ensaios de caracterização da mecânica dos solos, mesmo que o lodo difira do material normalmente ensaiado com esta técnica. Este uso dos ensaios para a caracterização do lodo é importante pois poderá significar uma redução de custos e de duplicação de laboratórios. Isto acontece porque os ensaios já são utilizados em procedimentos bem estabelecidos e já universais.

A importância desse estudo vai ainda além. A realização de pesquisas que analisam os parâmetros típicos, tanto de solos como de lodo, poderá, com o acúmulo de experiência, explicar relações que possam ser exploradas.  Pessoalmente acredito que o material proveniente da estação de tratamento de água possa ser investigado para utilização na fabricação de solo-cimento, o que provavelmente exigirá que seja misturado com areia ou com outros solos, isto porque é recomendável que a matéria-prima utilizada possuia 100% do material passando pela peneira 4, 10 a 50% do material passando na peneira 200, limite de liquidez igual ou inferior a 45% e índice de plasticidade igual ou inferior a 18%.

O lodo analisado ainda tem características que podem ser investigadas e utilizadas na fabricação de outros materiais cerâmicos, como tijolos comuns ou maciços, tijolos furados, telhas, manilhas de grês ou até mesmo produtos de louça. A sua granulometria muito fina permite ainda que o lodo seja utilizado como pigmento, dando cor a argamassas, pastas e revestimentos, ou como aditivo, alterando as características iniciais dos agregados aos quais for adicionado.

O estudo ainda alerta: antes de buscar destinação para o lodo gerado nas estações de tratamento de água deve-se, como é conveniente em qualquer gerenciamento de resíduos sólidos, adotar medidas que reduzam a sua produção e a sua toxicidade aos menores valores que se possam obter, sem prejuízo do tratamento de água.

O estudo foi feito no Laboratório de Mecânica dos Solos da PUC Minas, onde foram estudadas as amostras de lodo coletadas do decantador e da lavagem dos filtros da Estação de Tratamento de Água Rio das Velhas, bem como amostras do lodo dos leitos de secagem da Estação de Tratamento de Esgotos do Morro Alto, ambas operadas pela Copasa-MG.

Hiram Sartori

Hiram Sartori é Doutor em Engenharia Civil, área de Hidráulica e Saneamento, e ênfase em Resíduos Sólidos, pelo Departamento de Hidráulica e Saneamento da USP(1998), Mestre em Saneamento, Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (1995), Graduado em Engenharia Civil pela Escola de Engenharia da UFMG (1984). Tem experiência em Engenharia Civil, atuando com ênfase em Saneamento e Meio Ambiente, principalmente nas áreas de gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, capacitação e treinamento em gerenciamento de resíduos sólidos, administração universitária.

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